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The call


    Você anda em direção ao seu lado mais escuro, fecha os olhos pra enchergar só a si mesmo, a tristeza te acolhe, te pega nos braços e te leva, até você não saber mais como faz pra voltar, você sonha com pessoas que te fizeram sorrir, elas viram personagens, porque sorrir é ficção, elas te deixaram, mudaram, seguiram seu caminho, você devia fazer o mesmo, mas você não quer o novo, pois a sua única certeza é que tudo acaba, e que o fim machuca, racionaliza, se não tem começo, não tem fim.

    A leveza é insustentavel e insurpotável, você não sabe onde vai parar, pra isso você procura algo pra se segurar, pra criar peso, falsas memórias, falsos sorrisos, falsa alegria, falsas pessoas.

Tênue

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Dando um rolê pela rua, prestei atenção num cara.
Ele era ruivo, alto e o melhor, ele usava fones de ouvido vermelhos e enormes.
Era impossível não olhar. Pensei:

-Nossa, ele deve tá imerso no som, amarradão!

Quando ultrapassei, fiquei pensando naquilo - como julgamos as pessoas o tempo todo e como respondemos aos julgamentos dos outros, também.

Pensei que ele pudesse, sim, preocupar-se em estar com fones da hora, cheio de estilo, moderno e arrojado, ou então, que ele tivesse pego um qualquer numa caixa de velharias. Foi aí que eu percebi que a linha entre ter um estilo impecável ou não ter nenhum, é muito delicada. Há!

E quem se importa?
Eu não.

Escreva Thaee, escreva



Enquanto o telefone não toca, eu escrevo sem parar algo que não vale a pena ler.

Cansei...

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De pensar que eu não sei nada.
De querer saber tudo.
De querer que os outros pensem que eu sei tudo.

De querer quem não me quer.
 De não querer quem me quer.

De viver por um ideal que não é meu.

De regras

De sombras e solidão

De medo do escuro

De cansaço

De achar que a vida tem fórmula

De querer respostas imediatas

De não ter paciência

Cansei,

Mas não sei o que fazer com essa conclusão.

Compra-se um sonho

Um dia desses uma amiga virtual me perguntou:
- Qual seu sonho, Thaee?
- Sonho? como assim, sonho?
- Eah... sonho profissional.... sei lá, um sonho.
Aquele turbilhão de pensamentos me invadiu a mente. Sonhos de infância? De adolescência? Sonhos como? Que sonhos?

Mas que merda de pergunta é essa? Foi a única coisa que passou pela minha cabeça.

- Ahhh! não sei, profissional...
- Pode ser... o que você sonha?

Pensei em dizer sobre a casa azul com jardim e os dois labradores Calvin e Klein, mas achei que contar aquilo, naquele momento, não era propício.

- Meu sonho profissional, pessoal... tudo junto... sei lá... é fazer arquitetura na Europa.
- Porra! Que bacana!
- Eu não sou ambicioso ao ponto de querer todo o dinheiro do mundo. Quero só uma vida confortável. Pra mim, felicidade é uma casa planejada por mim.

Ela sorria com a minha resposta inútil. Eu não sei o que é felicidade pra ela, mas senti que a minha resposta não havia soado tão brega pra ela quanto soava pra mim.

O assunto, de repente, mudou e a pergunta ficou na minha cabeça, o resto do dia.
Essa pergunta me soou igual aquela tradicional pergunta em entrevistas de emprego:
"- O que você gosta de fazer nas horas livres?"
Ai você pensa milhares de coisas como "gosto de sexo, drogas e rock'n'roll" ou "gosto de ficar o dia inteiro na internet vendo besteira" ou "durmo o dia todo", mas você não pode dizer isso. Você não quer parecer um maníaco sexual, drogado, preguiçoso e roqueiro. Você quer ser alguém interessante, alguém que aquela empresa precise. E no final responde:
"- Ahh! eu gosto de cinema, teatro, sair com os amigos..."

Que sonho de vida eu tenho? O que eu gosto de fazer nas horas livres? Quais são meus defeitos? E as minhas qualidades? Gosto de desafios? Estou disponível para viagens? Tenho filhos? Qual minha rotina? Sei inglês? E espanhol? Tenho boa comunicação verbal? E a escrita, como tá?
Na verdade, compro sonhos, qualidades, coragem, entrosamento, disponibilidade, línguas e uma excelente comunicação.

Excesso de amor humilha



Não é verdade, eu tenho coração! É só que ele está perdido em algum lugar dentro de mim
.
O amor é como um estranho que invade sua casa enquanto voce está assistindo a sessão da tarde e abre sua geladeira sem nem ao menos perguntar o seu nome. Você até pode conhece-lo, mas nunca sabe do que ele é capaz.

Se liga playba

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Você já quebrou as regras? Já desceu do salto? Deixou de se importar com a opinião alheia?
Você já lambeu o asfalto? Já sentiu o gosto do seu próprio sangue? Já assumiu o seu sadismo? Já se acostumou com o seu masoquismo? Já aceitou a sua maldição?

Já andou descalço sem medo das cobras e dos vermes? Já viu alguém agonizando? Já olhou nos olhos de um bicho prestes a morrer? Você já teve medo da morte? Já olhou pra ela? Já sentiu vontade de abraçá-la?

Você já jogou tudo pro alto? Já teve coragem de dizer não? Já gritou na rua? Já quebro todos os princípios? Você já enolouqueceu?

Você já tomou um porre de esquecer o nome? Já esteve com a cara enfiada na sarjeta? Sujo com seu próprio vômito? Você já amou alguém além de você mesmo? Já assumiu a sua perversão? Já assumiu a sua falta de escrúpulos?

Você já agiu por impulso? Já ignorou as probabilidades? Já deixou de agir como um maldito computador alguma vez na sua vida?

Você já assumiu um erro? Já assumiu suas escolhas? Já admitiu que você tem medo?
Você já tentou realizar um sonho idiota? Já admitiu que fez uma escolha estúpida? Você já se machucou?

Já comeu até vomitar? Bebeu até esquecer? Se entorpeceu até apagar? Você já chegou ao limite?

Você já fez alguma coisa por alguém? Já perdeu alguém que realmente importava?
Você já fugiu da aula, de casa, do país? Já abandonou o serviço? Já brigou na rua? Você já deixou alguém sangrando? Por fora? Por dentro?

Você já gozou nessa sua vida de pequeno príncipe? Você já teve medo no mundo da AIDS? Já procurou uma puta de esquina e brincou com ela como se fosse a mocinha que mora na sua cabeça? Já assumiu pra si mesmo que você gosta do sujo?

Já acordou com o rosto inchado? Mutilado?
Você já dormiu brigado com Deus?


Você nunca esteve nas sombras. Nunca andou pelos caminhos da morte. Você sempre esteve aí parado, peso morto, pedra no caminho do mundo. Não se engane, você não parou por amor à vida. Parou por medo dela.

Rei do mundo

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Quando a euforia bate, me sinto em outro plano. Como se coisas pequenas não tivessem mais a menor importância. Não existe mais pudores e nem medo de nada. Simplesmente faço. Posso andar por aí com uma garrafa de água, cuspir água pra cima e molhar toda a minha camiseta, e ainda permanecer legal, sem nem notar os olhares que pousam sobre mim.

Posso andar por aí, e até voltar a sentir um calor no peito, quando vejo as luzes da cidade. São tão bonitas. Por alguns instantes até me esqueço que cada luzinha daquela significa uma família, um ser humano que não conhece a minha existência e me ignora. Isso nem machuca e de repente volto a tentar me equilibrar na guia.

Para 2011

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Desejo que você tenha a alegria para acordar todos os dias agradecendo.
Desejo que você tenha fé pra ir em frente mesmo quando as coisas não estão do seu jeito. Desejo que a vida não lhe torne amargo.

Desejo que não seja um fardo pra alguém e que não carregue fardos que não lhe pertencem. Desejo que você não precise arremessar coisas nem sentimentos por descontrole.
Desejo terapias, psicanálises e acupunturas.

Desejo que você consiga olhar pro próximo e enxergá-lo.
Desejo que você sinta saudade e, no tempo certo, a mate.
Desejo que não acumule pensamentos com os quais você não sabe lidar.

Desejo que você saiba abandonar e aprenda a lidar com os abandonos.
Desejos milhares de amigos de verdade.
Desejo que você encontre as soluções pros problemas que, querendo ou não, aparecerão. 

Desejo que você saiba a hora certa de ir ao médico e que tome os remédios na hora certa. Desejo que você descubra a hora de ir e a hora de parar. desejo, desejo e desejo, pelos próximos trezentos e sessenta e quatro dias.

Naufrágio


Tiro o telefone do gancho, e escuto para ver se foi cortado.
Não foi.
Certifico-me se a campainha esta funcionando.
Ela está.
Então me resta ir até o correio e verificar se o carteiro não adoeceu.
Ele está melhor do que eu. E vai se casar.
 

"Frágil – Você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar."
Caio Fernando Abreu